• redação CIVI-CO

A favela tá on: inclusão digital em comunidades periféricas

Atualizado: Out 7





Imaginem, em uma realidade futurística, adolescentes da periferia, utilizando jogos virtuais para conseguir uma ascensão social. Esse poderia ser mais um enredo ficcional, como o do livro Ready Player One (“Jogador Número 1”), do escritor norte-americano, Ernest Cline. Mas, neste caso, a cena já é uma realidade aqui no Brasil.


A Taça das Favelas de Free Fire, jogo virtual de ação em plataformas online, mobiliza adolescentes de 1.296 favelas brasileiras. O evento é organizado pela Central Única das Favelas, responsável por selecionar os melhores jogadores de cada comunidade.


Para a edição 2021 a organização espera mais de 200 mil interessados, onde 1,3 mil selecionados vão disputar o prêmio de R$ 100 mil.


As inscrições dos representantes das favelas selecionadas começaram no dia 29 de setembro e se encerram no dia 13 de outubro. Inicialmente a competição seguirá um formato estadual, em que as favelas vencedoras avançam para a etapa nacional.


A parceria é uma criação conjunta entre CUFA, LOUD, Itaú e Druid. As inscrições foram abertas no site oficial do evento e as favelas interessadas se inscreveram até o dia 28 de setembro. Passado este prazo, a CUFA está selecionando os jogadores habilitados para competir.


No papel de patrocinador do torneio, o Itaú irá distribuir 7,8 mil chips com até 2 GB de Internet por mês para os selecionados para a etapa estadual. A empresa também vai oferecer uma "jornada" sobre carreira, gestão financeira e investimentos junto à Barkus Educacional.


Grande sonho


Segundo levantamento do Instituto Data Favela, em parceria com a Locomotiva Pesquisas e a Cufa, 96% dos jovens moradores de comunidades em todo o país gostariam de ser gamers profissionais.

Para 29%, desses jovens ser gamer profissional é o maior sonho da vida deles, uma prioridade maior até do que adquirir a casa própria ou o desejo de ser feliz. Dentre os entrevistados, os homens jovens e com renda de até um salário mínimo foram os que mais manifestaram esta expectativa de futuro.

Esses rapazes enxergam a carreira de gamer profissional como uma oportunidade de rápida ascensão social, mais até que o futebol, a música ou ganhar na Mega Sena. A possibilidade de obter uma renda acima da média fazendo algo que gostam alimenta a chance de realizar sonhos e melhorar a vida da família.

Segundo a pesquisa do DataFavela, o celular é o principal dispositivo de acesso para 98% dos entrevistados, mas, ainda assim, 79% alegaram já terem deixado de jogar por conta de problemas na conexão à Internet ou pela falta de dados.

Inclusão X Exclusão

A pandemia trouxe um grande avanço para as atividades virtuais, a utilização de serviços, redes sociais e o entretenimento online atingiu o ápice nesse período. Por conta do isolamento social, as pessoas tiveram que se adequar a essa nova forma de “vida digital”.

De acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2020, lançada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, a pandemia da Covid-19 intensificou o uso da internet no Brasil e chegou a marca de 152 milhões de usuários.

Esse número corresponde a cerca de 81% de toda a população do país com mais de 10 anos de idade. Porém, sabemos que nas comunidades a realidade é outra: o acesso não é tão fácil, falta qualidade e tecnologia, além de políticas e incentivos para democratizar a internet para todas e todos.

Em 2002, o grupo de rap Racionais MC’s cantava na canção “Nego Drama”: “eu não sei fazer Internet, videocassete, os carro loco atrasado, eu tô um pouco sim...”. Hoje, quase duas décadas depois, a realidade é um pouco diferente.

O acesso à tecnologia portátil e de baixo custo possibilitou novas oportunidades para muitas pessoas, inclusive a de serem influenciadores, músicos, gamers e produtores de conteúdo. Este advento impulsionou e deu voz para diversos grupos que são socialmente excluídos.

Inclusive, esse foi um dos fatores que fizeram do Free Fire um jogo tão popular entre a juventude brasileira. É um aplicativo acessível, pois funciona em celulares de baixa tecnologia e não precisa de uma conexão veloz de internet.

A expansão digital nas comunidades ocorre principalmente pelos celulares, com usuários acessando recursos limitados. Um relatório da consultoria McKinsey & Company analisou um estudo da Google que apontou o seguinte padrão de acesso do brasileiro:

  1. Aplicativos de mensagens = 83%

  2. Redes sociais = 56%

  3. Leitura de notícias e mecanismos de busca = 54%

Ainda que o acesso à tecnologia seja mais democrático, ele não é totalmente inclusivo. Existe uma parcela da população que está enfrentando problemas maiores, como a fome e falta de moradia, e não podem priorizar o conhecimento neste momento.

Segundo levantamento realizado pelo IBGE em 2019 e divulgado neste ano, por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, apenas 43% dos estudantes da rede pública têm acesso à internet no Brasil.

É necessário ter programas que acelerem a inclusão digital. Hoje em dia, até para a inserção no mercado de trabalho, o conhecimento e o acesso à tecnologia são essenciais. Aplicativos de recrutamento, como o Linkedin, possuem cerca de 43 milhões de usuários.

O futuro é digital

Jovens apoiados pelas organizações sociais Redes da Maré e Instituto Vida Real, que desde o início da pandemia enfrentavam dificuldades para estudar, têm garantido o direito de se conectar e acessar oportunidades.

Através de uma ação de empoderamento digital para comunidades de baixa renda, a ONG Recode e o Fundo das Nações Unidas (UNICEF) distribuíram 269 kits de conectividade com smartphones e cartões de acesso à internet para jovens que vivem em situação de vulnerabilidade social em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Além de entregar os kits e oferecer as formações, as instituições acompanham regularmente os jovens durante seis meses, orientando e oferecendo o suporte necessário para o desenvolvimento nos estudos e na futura carreira que pretendem trilhar.

Os detalhes do projeto podem ser obtidos no site recode.org.br/gotecnologia.

"A pandemia acelerou a necessidade da inclusão digital. Foi criado um abismo entre as escolas públicas e particulares. Os jovens de baixa renda precisam se conectar à internet para ter acesso à escola, ao trabalho ou ao empreendedorismo. Estamos levando conexão à internet e empoderamento digital. Queremos fazer a diferença na sociedade", destaca o fundador e presidente da Recode, Rodrigo Baggio.

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