• redação CIVI-CO

Fórum em São Paulo mostra a evolução dos negócios sociais

Há 10 anos, quem ousasse falar em negócios sociais era chamado, na melhor das hipóteses, de sonhador. Na pior, de aproveitador. “Lá vem os ‘ongeiros’ agora querendo ganhar dinheiro!” Foi neste espírito de boa provocação que Célia Cruz, diretora executiva do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), abriu no último dia 6 de junho, o Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto, ao lado de Daniel Izzo, cofundador da Vox Capital, e Henrique Bussacos, cofundador do ImpactHub de São Paulo.

Como representantes das empresas realizadoras do Fórum, os três dividiram as atenções no primeiro painel do evento com uma das atrações internacionais do dia, o indiano Amit Bhatia, CEO do Global Steering Group para Investimento de Impacto. E Amit chegou impactando o público, em sua maioria formado por empreendedores sociais, que lotou o auditório do Centro de Convenções no Complexo Achè Cultural, em São Paulo. Amit disse que o Brasil, pela sua diversidade e riqueza, tem tudo para liderar o movimento do empreendedorismo social e para além de suas fronteiras. “Vocês podem criar não apenas impacto no Brasil, mas em todo o continente sul-americano. Coletivamente, podemos fazer com que o capital encontre o seu propósito maior, e coletivamente podemos construir um mundo que nos dará orgulho de deixar para a próxima geração.”

Na palestra, o entusiasmado indiano citou a carta deste ano de Larry Finks, CEO da BlackRock, a maior empresa de gestão de dinheiro do mundo. Na carta, que ele costuma enviar anualmente aos CEOs das empresas clientes, Larry diz que para alcançar e sustentar o sucesso financeiro, a estratégia da empresa deve levar em conta o impacto social de seus negócios, bem como as mudanças climáticas, fatores que podem afetar o potencial de crescimento. “As empresas devem se perguntar: Que papel desempenhamos na comunidade? Como estamos gerenciando nosso impacto no meio ambiente?” Para Amit esta é a prova de que o empreendedorismo de impacto socioambiental já passou para outro patamar. “Eu posso garantir que quando empresas como a Blackrock, com mais de US $ 6 trilhões em ativos sob gestão, começam a pensar em impacto, sustentabilidade e papel na comunidade, o mundo está mudando.”

O Fórum, que acontece a cada 2 anos, reuniu mais de 1000 pessoas, 2 vezes mais que na primeira edição em 2014, e contou com 6 convidados internacionais e 170 brasileiros. As palestras, mesas e rodas de conversas, abordaram a atuação das Fundações, ONGs, Grandes Empresas e Governo no empreendedorismo social, e trouxeram, entre outros, temas como Tecnologias para Alavancar Impacto, Meio Ambiente, fazendo parte pela primeira vez, Força Tarefa de Finanças Sociais, Periferia, Gênero e Raça.

Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, empresa residente no CIVI-CO, atuou em diferentes painéis e mesas. Referência no afroempreendedorismo, Adriana lançou durante o evento, em conjunto com um grupo de empreendedores de 12 organizações de 5 estados brasileiros, o Fundo de Investimentos Éditodos, um fundo para apoiar empreendedores sociais que atuam na base da pirâmide. “Essa coalizão não é só para a mobilização de recurso, mas para entender de que forma a gente visibiliza essas narrativas, as nossas ferramentas e metodologias e como a gente consegue trabalhar junto em prol de uma única causa.” Adriana também falou sobre o fato de os fundos privilegiarem somente certos setores e que está cansada de ser chamada para falar sobre sua trajetória sem receber nada por isso. “As pessoas não têm ideia, mas às vezes não temos dinheiro para pagar um transporte.”

Ítala Herta, cofundadora do Vale do Dendê em Salvador, lembrou que o empreendedor das periferias e comunidades ainda são tratados como vítimas. “Gente, chega dessa maluquice, dessa história de superação…" A mensagem do grupo foi clara: assim como todos os demais empreendedores, eles precisam de dinheiro para realizar o trabalho de impacto. O Fundo Éditodos está em fase de captação de recursos, mas o plano é oferecer os empréstimos socioambientais para empreendedores das classes C,D, E, já na segunda metade de 2018.

Samara Werner, da Tamboro, falando sobre os desafios de empreender.

Outros empreendedores residentes do CIVI-CO foram destaques das mesas e painéis do evento. Samara Werner, fundadora da Tamboro, plataforma de educação, fez parte da mesa "Os Desafios e Soluções dos Empreendedores de Impacto."

Mariana Fonseca, à direita, mediando a mesa que reuniu Carolina de Andrade, Social Good Brasil, Rafael Vivolo, Mgov Brasil e Fabio Tran, Omidyar Network. Foto: divulgação[/caption]

Mariana Fonseca, fundadora da Pipe Social, mediou a mesa Tecnologias para Alavancar Impacto. Anna Aranha, diretora da aceleradora Quintessa, participou da Rodada de Conversa sobre Apoio ao Empreendedor de Impacto. E Eduardo Pedote, da Bentevi Investimento Social, fez parte da Roda de Conversa de Fundações e Institutos de Impacto.

Tonya Surman, CEO da Centre for Social Innovation. No segundo e último dia do Fórum, o destaque internacional foi a inglesa Tonya Surman. Empreendedora social e CEO do Centro de Inovação Social (Center for Social Innovation) no Canadá, Tonya disse ter ficado empolgada com o "apetite" no Brasil pela transformação social. Mas frisou que o momento ainda é de transição tanto aqui, quanto no Canadá. “Estamos no meio de uma transformação cultural e estamos todos ainda na posição de ter de provar que as coisas funcionarão e mostrar quanto em troca podemos oferecer aos investidores.” Com um discurso objetivo e vibrante, Tonya celebrou alguns avanços e pontuou algumas medidas que podem fazer toda a diferença no crescimento do impacto social. “Estamos vendo algumas decisões importantes serem tomadas com fundos de investimento com retorno zero. Sei que nem sempre os bancos gostam de ouvir isso, mas é importante que alguns investimentos possam ter um retorno abaixo do mercado, pelo menos nos primeiros 3, 5 anos, para que esses projetos superem essa gigantesca lacuna.

No Canadá, cada vez mais empresas e investidores se mostram dispostos a aceitar mais riscos e menos retornos.” Tonya trouxe como exemplo de mudança de paradigma o caso da Vancity Credit Union, a maior cooperativa de crédito do Canadá. Após atuar em apenas uma região, em Britsh Columbia, a Vancity Community Investment Bank, agora passará a atender nacionalmente e todo investimento feito será um investimento social. “Isso é um grande passo!” Festejou Tonya.

O Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto encerrou com a exibição do grupo de dança Gumboot Dance Brasil, uma dança popular sul-africana com gingado brasileiro. O som da batida forte das mãos, pés e pernas dos bailarinos, representaram a força do evento que trouxe a certeza de que o empreendedorismo de Impacto Social é um movimento que, muito em breve, será visto como o grande negócio do século XXI.

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