• redação CIVI-CO

Os aprendizados da pandemia para o futuro da Educação

Por Ricardo Henriques*


Os prejuízos trazidos pela pandemia à educação são de extrema gravidade e não devem ser minimizados. Mas, como em toda situação que gera uma ruptura radical, é preciso também estar atento a oportunidades para mudar. Cometeremos um erro grave se não utilizarmos aprendizados do período para alcançarmos um novo patamar, mais inovador. O avanço da vacinação nos dá esperança de iniciar a transição segura para as aulas presenciais, mas a educação não pode voltar a ser como era antes. Nossos desafios serão ainda maiores, a começar pelo fato de o Brasil estar entre os países com maior tempo de suspensão das aulas presenciais.


E, pelo diagnóstico, sabemos que o ensino remoto ficou muito aquém do esperado devido a sua baixa efetividade, quando comparado ao ensino presencial, à falta de acesso à internet ou aos equipamentos necessários para que os estudantes pudessem acompanhar as atividades escolares e ao baixo engajamento nas atividades escolares, conforme captado pela Pnad COVID19.



Uma parte do desafio deve ser equacionada com a liberação de recursos para garantia da conectividade para estudantes e professores de escola pública, com a votação na Câmara dos Deputados que derrubou o veto do governo federal para o PL da conectividade, que prevê repasse de 3,5 bilhões de reais para que estados e o Distrito Federal possam comprar planos de internet móvel e equipamentos para garantir o acesso ao ensino remoto a professores da rede pública e estudantes de famílias inscritas no Cadastro Único.


Por outro lado, com a retomada das aulas presenciais no segundo semestre, teremos um cenário mais favorável para solucionar o desafio de recuperar as perdas de aprendizagem. Para isso, precisamos olhar para o que funcionou no ensino remoto e inovar, considerando o melhor uso da tecnologia para a educação. O que tivemos até hoje, devido à forma emergencial como foi estabelecido, não aproveitou todas as possibilidades da tecnologia para ampliar a aprendizagem dos estudantes.


Quando pensamos no ensino híbrido, a ideia é que a modalidade seja mais participativa, sem substituir, de forma alguma, o professor e valorizando ainda mais sua capacidade de produzir vínculos com os estudantes e sentido ao processo de ensino-aprendizagem. O modelo tem enorme potencial para trazer inovação, permitir experimentação e para tornar o estudante mais protagonista e preparado para atuar em um mundo cada vez mais complexo.


Mas é fundamental que o Estado assuma a responsabilidade de oferecer formações aos educadores para que a tecnologia trabalhe a favor do projeto pedagógico. O modelo híbrido requer adaptações no currículo, dedicação para analisar, refletir e testar as possibilidades, mas o processo deve ganhar agilidade, além de se tratar de um modelo com potencial de ser escalável por meio da construção coletiva do conhecimento.


Nesse contexto, secretarias e equipes gestoras precisam atuar no apoio aos educadores, com a criação de espaços de troca de experiências entre pares. A construção do novo modelo de ensino deve ser amplamente discutida nas redes, com compartilhamento de dúvidas, desafios e experiências de sucesso. É esse processo contínuo que pode levar a educação pública a um novo patamar, com apropriação da tecnologia para a construção de uma escola mais contemporânea, eficiente, com altas expectativas para todos e com atenção aos estudantes mais individualizada de modo a colocar em marcha uma estratégia intencional de redução das desigualdades.


Ainda não temos as respostas de como serão as configurações do modelo híbrido, quais serão as práticas adotadas, mas dificilmente vamos voltar a ensinar apenas no modelo tradicional. A travessia do período da crise derivada da pandemia deve nos levar a, simultaneamente, encarar nossos desafios históricos e projetar um futuro com aceleração das necessárias transformações estruturais das práticas educacionais. Ainda temos muito o que aprender, porém não podemos mais dizer que não conseguimos fazer diferente.


*Ricardo Henriques, economista, é superintendente-executivo do Instituto Unibanco.


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