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Quanto tempo temos? Mudanças climáticas e os impactos na economia brasileira

Atualizado: Ago 20

Veja as ações que podem reverter o cenário atual em curto prazo


Foto: Reprodução

“Segundo o estudo, esses prejuízos podem chegar a quase 4% do PIB do país”



O impacto no agronegócio brasileiro

O Brasil é um país referência no setor agrário, e cada vez mais vem sofrendo com as alterações climáticas. Plantações inteiras destruídas pela seca ou então congeladas, locais conhecidos pelo frio fazendo calor, regiões tropicais abaladas por frentes frias.


Até parece o roteiro de algum filme pós-apocalíptico, mas não é. O aquecimento global é real e as consequências mostram que estamos vivendo um período intenso de mudanças.


Por muito tempo, o desenvolvimento econômico foi inverso à preservação da natureza e à sustentabilidade. O desmatamento, as queimadas, a emissão de gases aceleraram em décadas o processo de aquecimento global.


Hoje, o planeta Terra está 1º C mais quente que o período pré-industrial e até a economia já sente os impactos dessas mudanças. Somente o Brasil tem perdas anuais entre 0.4% e 1.8% do produto interno bruto (PIB) por conta das mudanças climáticas.


Até 2040, estima-se que a Terra esquente mais 0,5º C, se ações concretas não forem adotadas. No âmbito econômico, o setor primário é o mais afetado.

Se não houver comprometimento e engajamento de todos, do governo ao cidadão, as futuras gerações vão sofrer consequências ainda piores do que já estamos enfrentando.


Estudo aponta baixa na produtividade entre 2020 e 2100


As estimativas apresentadas na dissertação de mestrado “Mudanças climáticas no Brasil: efeitos sistêmicos sobre a economia brasileira provenientes de alterações na produtividade agrícola”, produzida por Bruno Santos de Souza e divulgada pelo Instituto Escolhas, apontam que as perdas econômicas totais poderão representar até cerca de 0,7% do PIB, sob um cenário otimista.


“Segundo o estudo esses prejuízos podem chegar a quase 4% do PIB do país, o que é muitíssimo grave, um volume de recursos que vai prejudicar e muito o Brasil. Uma queda de 4% arrasa com qualquer economia. As mudanças já são uma realidade e as perdas para o setor mais dinâmico da economia são terríveis. Pena que muitos dos setores da agronomia não tomaram consciência e fazem esse namoro perigoso com o negacionismo”, comentou Sérgio Leitão, advogado, fundador e diretor executivo do Instituto Escolhas.


A análise feita pelo Instituto Escolhas estima que as culturas de soja, cana-de-açúcar, milho, feijão, café e laranja terão baixa na sua produtividade entre 2020 e 2100. Essas culturas representam cerca de 82% da produção do país. Consequentemente, essas plantações são mais dependentes das condições climáticas e apresentam uma baixa taxa de adaptabilidade.




Fonte: Instituto Escolhas

Se novos hábitos não forem adotados em todo o planeta, essa situação será irreversível, pelo menos é o que diz o estudo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), sigla em inglês do órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). Por isso, boas práticas ambientais são valiosas no mercado financeiro, muitas vezes adotadas como políticas institucionais.


“É fundamental a gente entender que isso só vai ocorrer quando o fluxo de recursos de investimento mudar. Ou seja, quando o dinheiro sair daquelas atividades que hoje estão ligadas aos negócios que provocam a mudança climática”, explicou Leitão.

O perigo da desinformação


Uma das recomendações do Instituto Escolhas para diminuir o impacto do aquecimento global é a transparência de informação e o compartilhamento de dados reais sobre o tema.


O negacionismo e a desinformação são armas constantemente utilizadas por setores conservadores tanto na política, quanto na economia. Eles ganham força principalmente em uma população sem acesso à informação, desinstruída e sem posicionamento político, social e ambiental.


“O problema faz parte da vida das pessoas, elas sabem o que é o frio, o que é o calor, o agricultor sabe o que é a perda da sua produção, sabe o que é a quebra de uma safra, sabe o que é uma seca. A gente não tem que fazer uma comunicação que seja científica na escrita, mas ela tem que estar ancorada nos dados científicos. Tem que falar a língua do povo. Para combater o negacionismo usamos informação qualificada, traduzida e simplificada para as pessoas entenderem”, comentou Sérgio Leitão.


O IPCC é uma ferramenta aliada nessa luta contra a desinformação, constantemente divulgando dados e estudos sobre o aquecimento global e as consequências no planeta. Recentemente o instituto divulgou um relatório sobre as mudanças climáticas que chocou o mundo: diante de mudanças sem precedentes no clima, algumas delas podem ser irreversíveis.



Imagens de satélite de incêndios florestais em Evia, na Grécia


Confira nove pontos listados pelo relatório do IPCC sobre o impacto do aquecimento global na Terra:

  1. A temperatura da superfície terrestre subiu mais rapidamente desde 1970 do que em qualquer outro período de 50 anos visto nos últimos 2 mil anos;

  2. As ondas de calor se tornaram mais frequentes e mais intensas em quase todos os continentes do planeta desde 1950, enquanto frios extremos se tornaram menos frequentes e menos severos;

  3. Nas últimas 4 décadas, houve um aumento da proporção de ciclones tropicais;

  4. A influência humana aumentou a chance de eventos extremos desde 1950 e isso inclui a frequência da ocorrência de ondas de calor, secas em escala global, incidência de fogo e inundações.

  5. Em 2019, a concentração de CO² na atmosfera era maior do que em qualquer outro momento nos últimos 2 milhões de anos e a concentração de metano e óxido nitroso era a maior em 800 mil anos;

  6. As ondas de calor marítimas ficaram aproximadamente duas vezes mais frequentes desde 1980;

  7. Entre 2011 e 2020, a área média de gelo no Ártico atingiu seu número mais baixo desde pelo menos 1850 e era, no final do verão, menor do que em qualquer época nos últimos mil anos;

  8. O recuo das geleiras – com uma redução sincronizada em qualquer todas as geleiras do mundo desde os anos 50 — é sem precedentes pelo menos pelos últimos 2 mil anos;

  9. O nível médio do mar aumentou mais rápido desde 1900 do que em qualquer século em pelo menos nos últimos 3 mil anos.


Como reverter o cenário atual


A análise do Instituto Escolhas também aponta algumas estratégias de políticas públicas que podem ser implementadas em curto prazo com o objetivo de diminuir os impactos das mudanças sobre a economia nacional:


• Políticas de mitigação de emissões de GEE no âmbito nacional e internacional;


• Engajamento governamental e deliberações conjuntas entre a Agricultura e o Meio Ambiente;


• Políticas de adaptação prévia e implementação de políticas de integração entre as regiões brasileiras;


• Maior variabilidade e equilíbrio na malha de produção agrícola brasileira;

• Obtenção, registro e disponibilidade ampla de dados;


• Apoio, incentivo e financiamento a estudos relacionados para viabilizar sua continuidade, monitoramento e aplicabilidade


A implementação dessas políticas é um processo gradual. Mesmo sendo uma prioridade do setor empresarial, diversas práticas devem ser adotadas por todos nós. Buscando assim, um novo horizonte para as condições ambientais e climáticas do planeta.

“Sairemos do modelo que é baseado em destruir para produzir, para um modelo novo que seja completamente diferente. Isso é uma transição geracional, tecnológica, de processos industriais, produtivos e energéticos”, vislumbra Leitão.


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